Continuando a tratar de coisas "polêmicas", hoje vou falar sobre um pouco do que é minha visão sobre o debate sobre consumo de drogas. Vou tentar ser o mais imparcial possível porque eu considero que não é de interesse de nínguem (e muito menos meu) me expor aqui.Me motiva escrever esse texto um texto que eu li agora, esse aqui,e várias opiniões que eu ouço por ai, tanto em meios de comunicação grandes até mesmo por meio das pessoas com quem converso. Primeiro vou falar sobre o que considero sobre drogas, depois eu critico essas ações policiais (tô fazendo isso bastante, né ? :p)
Ter a idéia de que vai existir uma humanidade sem uso de substâncias que modificam a realidade (que é a definição de drogas) é um ingenuidade. Considero que todas as civilizações tiveram seu próprio modo de se enebriar, procurando alguma coisa que desconecte do mundo real e leve a um mundo surreal, me arrisco a dizer até superior. Acho que é inato do ser humano essa procura, do mesmo modo como é inato a figura das divindades. Isso não quer dizer que usar drogas é uma coisa justificável, normal, que você tá errado em não o fazer. Não acho isso e não estou aqui pra fazer apologia. Mas acho que a hipocrisia de como o assunto é tratado é mais prejudicial do que o uso ou não de qualquer substância. Drogas matam, são prejudicias pra sua saúde, causa dependência ? Sim, comprovadamente sim, apesar de algumas serem piores que as outras. Mas várias outras coisas matam. E se tem uma coisa que a nossa sociedade não tá preocupada é com mortes.
Você pode até dizer que a vida humana tem um valor enorme e que há um esforço enorme para que essas vidas possam ser mantidas. Mas você tá meio que se enganando. Me arrisco a dizer que a grande maioria, chutando no mínimo uns 2/3 das pessoas, não dão a mínima pro resto da humanidade (a não ser que essa humanidade se resuma a pessoas que você tem um afeto). Um exemplo disso ? Você sabe que milhões de pessoas morrem de fome enquanto você desperdiça milhares de reais por ano com superficialidades. Você sabe que milhões de pessoas morrem numa fila de hospital por falta de médicos, por exemplo, e nem por isso você viraria médico, afinal não curte muito sangue (eca, eca). Se você se importasse tanto pela humanidade se esforçaria um pouquinho mais pra ajudar o mendigo que mora ai perto da sua casa.É provável que você nem saiba o nome do seu porteiro e ainda dá uma de consciente e protetor da vida humana. Mas isso é assunto pra outro texto.
Não tenho a intenção de ser moralista, acho que nem tenho a consciência limpa o bastante pra isso. Mas pelo menos admita, eu sou hipócrita, você é hipócrita, em muitos momentos. E quanto se trata de drogas, também. Porque tamanha intromissão na vida de alguém ? Porque as pessoas não podem simplesmente tomar suas próprias decisões de fazer coisa x ou y sem que todo mundo coloque o dedo e diga que está errado (sendo que muitas vezes essas pessoas possuem falhas de caráter muito maiores) ? Onde eu quero chegar com isso ? Porque uma pessoa adulta, com todas as suas capacidades mentais, não pode escolher usar drogas ?
Tudo bem, existe o argumento de que a pessoa não prejudica apenas ela com esse comportamento. Mas nínguem proibe o alcool ou o cigarro que prejudicam outras pessoas também. Qual a diferença ? Essas drogas também destroem famílias, profissionais, superlotam o nosso sistema de saúde e matam diariamente milhares de pessoas. Ou sejamos mais radicais: Se nos importassemos tanto assim com "a vida", porque não proibir consumo exagerado de açúcar, sal, gordura trans, o que também mata milhões de pessoas (às vezes até mais do que as drogas ilicitas) ? Se nos importamos tanto assim porque não fazemos carros que andam mais devagar, que sejam mais seguros e que evitam que as pessoas morram no trânsito como acontece quase todos os dias ?
Pra maioria das pessoas que convivem com você, a vida humana não vale quase nada, precisamos ter isso claro. Pessoas nascem e morrem de coisas bastante idiotas e nínguem se importa. Mas a única coisa que tem de valor na humanidade, na minha opinião, é a liberdade de escolha. Isso nos define como seres humanos e nos dá dignidade. Lógico que muita gente entra por um caminho de usuário pesado de drogas, perde totalmente a liberdade e se torna um viciado. Mesmo que essa pessoa queira parar, não vai conseguir. Mas isso também não ocorre. É muito arbitrário fazer como o Estado nos dias de hoje que diz: "você não pode fazer isso porque eu considero que isso é errado, que você vai se tornar uma pessoa pior". E se essa for minha escolha, vai adiantar a proibição ? Por isso sou a favor da legalização das drogas. Não sou a favor como medida "pra acabar com o tráfico", mas sim como medida para sermos mais sinceros. O tráfico é consequencia de outros erros da nossa sociedade (como a impunidade, a falta de saídas para um população jovem e pobre e a falta de cultura, de conhecimento do mundo, assunto pra outros textos), e relacionar o tráfico de drogas apenas com a existência de drogas é tampar o sol com a peneira.
Acho que a legalização deveria ser acompanhada com educação, com a formação de uma cultura em que a escolha de usar/não usar drogas seja acompanhada do conhecimento sobre as consequencias. Quebrar o tabu é isso. É as pessoas saberem realmente o que querem e não como é hoje, onde as pessoas fazem ou deixam de fazer algo que é inerente à condição humana por medo, desconhecimento, curiosidade.Espero envelhecer num mundo onde meus netos possam falar tranquilamente: "eu não vou fumar maconha não é porque eu vou apanhar da polícia, ser preso ou porque é errado. Eu não vou fumar porque eu não quero. Ou eu vou fumar porque eu quero, e não porque se eu o fizer eu vou ser uma pessoas rebelde, 'do contra'". Isso é tratar as pessoas como seres inteligentes, capazes de decidir seu próprio caminho. E se escolherem um caminho de merda, tudo bem, que os envolvidos sofram as consequencias, que elas sabem muito bem quais são.
Quanto a questão policial e sua relação com as drogas hoje em dia, é um de absurdo gigantesco a entrevista que eu vi do governador do estado de São Paulo falando que as ações da polícia militar na cracolândia tem o objetivo de trazer "dor e sofrimento" (palavras dele) para os usuários de crack para que eles possam procurar ajuda médica para largar o vício, já que a internação no Brasil não pode ser compulsória (ainda). Pela lógica dele, já que não podemos obrigar um monte de zumbis (veja imagens, inclusive do lugar onde essa galera mora) a largar o vício deles, vamos empurrá-los pro lugar mais longe possível do centro de sampa, onde estão as redes de tráfico (essas sim deveriam desaparecer), para que eles corram para uma rehab. Desculpa ai, mas isso não vai acontecer. Vão surgir outras cracolândias, talvez até maiores, mais pulverizadas, mas se você não der uma alternativa de vida pras essas pessoas que não tem nada a perder em usar algo que é tão prejudicial pra elas, elas vão continuar usando. Não vai ser "transformando cassetete em política de assistência social" que você vai resolver uma questão cultural, econômica, sociológica. Só com a compreensão e a valorização da vida dessas pessoas que elas vão poder escolher se drogar ou não. E vão escolher não se drogar, mas pelo motivo certo, não por medo.
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