terça-feira, 18 de setembro de 2012
Brutais.
Vivemos em mundo violento, e isso não é novidade pra nínguem.Basta um passeio por uma grande cidade - e cada mais por cidades médias e pequenas - pra vermos que nosso mundo é marcado por grades, cercas elétricas, cadeados cada vez maiores, vigilância onipresente e tantos outros aparatos que nos dão, pelo menos, a ilusão de segurança.Além do medo que temos das outras pessoas, o mundo por si só é um lugar absurdamente hostil, e aprendemos isso desde pequeno. Raios, inundações, secas, pragas, furacões, maremotos, terremotos, animais selvagens. Taí o discovery channel pra não me deixar mentir: o nosso planeta é de dar medo. E hoje em dia eu vejo cada vez mais que a cara da nossa sociedade é a do medo. Só falta nos lembrar de que o mundo sempre foi perigoso, a violência sempre fez parte da história da humanidade, até mais do que hoje. Mas cá estamos e amanhã, como humanidade, estaremos.
Antes que pensem, eu não pensei em escrever esse texto como uma crítica nem ao nosso planeta nem ao nosso débil sistema de segurança. Acho que o propósito foi refletir que, apesar de todos esses perigos, o pior não é o que está "fora do mundo" e sim "dentro de nós". O meu maior medo não é das catastrófes, mas sim dos pensamentos imperiosos de intolerância e preconceito. Meu medo é o ódio que o ser humano tem, desde sempre e em todos os lugares, como herança comum. Pensei o texto quando refletia sobre as demonstrações de extremismo que vemos nesses últimos dias no mundo árabe, tudo fruto de uma reação a uma violência que surgiu do nosso mundo, do pensamento ocidental. Nós achamos tão certo em criticá-los pela selvageria, que é realmente é condenável, enquanto não pensamos que essa "selvageria" (sim, aqui coloco aspas) não é de toda desmedida.
Considero a violência que foi feita a eles maior do que a que ele fizeram como reação. Não entro nos méritos das manobras que os poderosos daquela parte do mundo fazem com os mais frágeis e susceptíveis que os ouvem e obedecem. Seria ingenuidade pensar que tudo aquilo (a destruição de embaixadas, a queima de bandeiras americanas e de biblías, a morte de funcionários inocentes de uma representação do nosso modo de vida ali, toda a violência estampada nos jornais e televisões do mundo durante essa semana), tudo isso, como fruto de um pensamento, de uma ambição coletiva. Esses pensamentos coletivos já foram tão raros que eu duvido que ainda existam. Os "protestos" que vimos por essa semana são manipulações de gente que usa a falta de instrução daquela população, carente e devota a leis e a uma religiosidade, levando- os a obedecer certos dogmas sem questionar. Porém os méritos da revolta deles podem ser resgatados em outro texto. Esse tem como objetivo dizer que o modo como eles foram tratados e como os olhamos é a verdadeira violência. Por trás da nosso hipocrisia, das nossas palavras bonitas e do nosso sentimento de pertencermos a uma elite da humanidade, nós, ocidente, os colocamos como bárbaros, como ignorantes, como estúpidos ajoelhados frente à nossa suprema e magnífica soberania e sabedoria. Fazemos piadas de seus hábitos, de seus modos e vestimentas, de suas tradições e até da sua arreigada religião, que pra nós não passa de loucura, de enganação. Só nos esquecemos de olharmos no espelho e vermos que do lado de cá os erros não são tão diferentes, não somos tão "limpos", o telhado de vidro é enorme, apesar de fazermos de tudo para evitar mostrá-lo e quebrá-lo.
Enquanto milhares aqui lutaram, lutam e lutarão por direitos humanos e pela liberdade, continuamos a menosprezá-los. Eles e tantos outros. Em qualquer país que não fosse hipocríta com a sua moralidade, o filme onde o profeta deles é ridicularizado seria retirado do ar e o seus produtores e diretores presos, como manda a lei para crimes de ódio, como o racismo, machismo e a homofobia. Como é repugnante nos dias de hoje (não que não tenha antes sido, mas era aceitado por essa mesma moralidade hipócrita) fazermos um filme onde negros sejam colocados como seres inferiores, mulheres como simples objetos e homossexuais como aberrações, também é fazermos um filme que marginaliza grande parte da população mundial, chamando-os de ignorantes e estúpidos. Seja você religioso ou não, de que religião for, você não deveria colocar a sua "liberdade de expressão" à frente de qualquer coisa. À frente, principalmente, do respeito pela história de vida do outro, suas convicções e crenças. E não estamos falando só de uma pessoa, o que já seria o bastante, mas de cerca de 1/6 da humanidade. Eles não são tão minoria assim. Mas continuamos pisando.
Concluo com o desafio de pensarmos se realmente estamos seguros. Se realmente compensa lutarmos por nossos direitos e cumprirmos os nossos deveres diariamente, enquanto lá fora, não muito longe ali na esquina, e não só no oriente médio, as pessoas simplesmente continuam intolerantes e extremistas. Continuam pesando tudo em dois pesos e duas medidas. Do que adianta o seus anseio de liberdade ser cumprido sendo que toda uma cultura está sendo desprezada ? Do que adianta a luta por direitos dos seus iguais sendo que os seus diferentes estão sendo massacrados e você aplaude e fala: "Eles que começaram". Chega a ser infantil a nossa busca por segurança quando a verdadeira violência mora no coração do homem. É nesse momento em que eu penso: Tomara que Alá/Jeóva/Shiva/Jesus ou qualquer outro (ou até mesmo nenhum deles, mas a simples solidariedade e coerência do humanismo) tenha piedade de nós por sermos tão mesquinhos e ignorantes. E que possamos sobreviver pra um dia ver tudo isso apenas nos livros de história e dizermos: éramos brutais, mas melhoramos.
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