sábado, 1 de setembro de 2012

Felicidade Infeliz



Que felicidade é essa que precisa de instrumentos musicais tocando algo animadinho ?
Que felicidade é essa que necessita de copos de bebida, pulmões cheios de fumaça
que necessita de narizes entupidos, de veias vazias.

Que felicidade é essa que precisa de mais alguém pra acontecer. que precisa de uma, duas, dez ou mais camas diferentes (ou iguais) por mês ?
Que felicidade é essa que vem num motor de um carro, na hélice de um helicoptero, no leme de um barco ?
Que depende de uma torre de ferro e pedra, que apesar de segura e durável, um dia caí.
Que felicidade é essa que necessita rodas de buteco, reuniões da igreja, encontros num domingo a tarde no parque ?
Que felicidade é essa que precisa de um canudo de papel, de um aplauso, de um título frio gravado numa porta de uma sala, de um cubículo, de uma parede.

Que felicidade é essa que precisa de (bilhões de) cabos pra se conectar com um mundo irreal, onde se pode ser qualquer um e onde qualquer um pode ser alguém ?
Felicidade que vem de uma terra de sorrisos de plástico e de cabeças que, de tão vazias, nem mesmo se autocriticam. Um mundo onde o certo é a cópia, onde o bonito é "a espuma".
Que felicidade é essa que vem com um pedaço de papel, onde se tem a assinatura de um "homem importante" e um número.
Mais felicidade ainda se o número for 100, o papel for verde e a assinatura for em inglês.
Que felicidade é essa que vem de andar, ver, tocar, saborear o mundo todo e perder-se dentro de si mesmo quando deita a cabeça no travesseiro no seu próprio quarto.
Que se perde em não saber quem é e o que vai ser amanhã.

Que felicidade é essa em acreditar que existe algo ou alguém maior, intocável, de sabedoria insuperável e que você pode fazer parte disso se seguir o que esse algo/alguém lhe diz, "sem se desviar nem pra direita, nem pra esquerda".
Que felicidade é essa que necessita de algo, que não é feliz em si mesma, que não se completa nunca.
Que move guerras, que cria a morte em suas entranhas, que suscita discórdia, que afasta filhos e pais, amantes e amigos.
Felicidade que se torna vício na mais tenra infância, que contamina, que orienta, que regula, manda na vida..
Felicidade que dita. Felicidade ditadura. Ditadura de uma felicidade sem limites, sem fim, sem meios, sem propósito.
Onde ser feliz é ser alguém. Onde não sorrir é ser culpado. Onde dizer que está triste é se sentir fracassado.
Onde a vida tem que ser explosão, cores, ação. O sentimento é de pena, de dó.
Desgraçada felicidade infeliz.

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