sábado, 4 de maio de 2013

Malandro


Chega sexta-feira, tira a roupa do trabalho, coloca a calça e a camisa branca, o chapéu panamá e o sapato bicolor. Não esquece a medalha de São Jorge. Benze-se e protege-se.
Vai no boteco da esquina e pede um copo daquela, a de sempre. Amigos na mesa do lado, em todas as mesas do bar, mais um trago.
A noite é longa, mais uma carteira, por favor. Onde vai terminar ? Acabou de começar, nem precisa trazer a saideira.
Anda como quem tem, de natural, a cadência certa. Não atropela a batida do cavaco.

Tem um sorriso enorme, desses que abrem qualquer coração como se fosse um abridor de lata.
Alto, pele negra como a noite no meio do mato, olhos como duas estrelas faiscando a felicidade sincera que sente.
Usa o corpo como ferramenta. Sem obsessão o deixa preparado para o que vier pela frente. Mas não nega que o chopp deixou uma marquinha aqui e ali.
Não foge de briga, gosta de confusão. Protege até o amigo que fez há 10 minutos, navalha e voadeira de capoeira.
Batuca na mesa, canta e desafina, arrisca uma música no violão, erra. Nunca se vangloria, sabe que a sua humildade é sua principal qualidade. Isso e o mistério dos olhos.

Na roda de samba dança devagar, miúdo  pra não se gastar. Não gosta de dançar no meio, acha coisa de moleque. Dança onde a morena bonita, que já fitou, pode ver.
Não fala muito, mas também não fala pouco, é o necessário.
Não mente. Não só porque é errado, mas porque não precisa. Se abre.
Tem atitude, mas paquera como um cavalheiro. No que um homem pode confiar além da sua postura ?
Se senta, come, fala e age como um príncipe,  e age mesmo como é. Bisavô, tataravô, eu não sei, mas todos sabem - mesmo sem ter certeza - que eles veem de uma linhagem de reis lá na distante África. Vestiam diamante, ouro e marfim, mas no Brasil vestiram o ferro dos grilhões. Mas sem rancor, sabe-se o preço que tem um coração nobre.
Nunca foi do fino trato, sempre volta pra casa um trapo, um vira-lata. Vê mais o nascer do sol do que deveria.
Pro malandro a sexta só termina no domingo a noite.

É malandro, mas não de carteirinha. Nega o título, se diz mais um, só um trabalhador. Faz bem.
Mas todo mundo sabe que no coração bate uma bateria de escola de samba, e na cabeça só tem espaço pra pensar: quando vai ser sexta de novo ?
Não vê a hora de abrir a alma pra mais sucesso.

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