"Às vezes me pego
sonhando acordado com a imagem, recorrente, da penumbra de lençóis e corpos no
meio da madrugada. Assim eu reconheço, sem muita visão, no entrelaçar terno e
morno de pernas e braços, a epifania personificada, encarnada, endeusada - e
porquê não, amada - em cabelos longos com perfume de Phebo.
Lá, parada, firmando
as vistas contra a minha.
Enfim.
Quase imperceptível
na pouca luz do quarto, no brilho excessivo daqueles olhos entreabertos. Dentro
deles, o reflexo do meu sorriso, duplicado nas suas pupilas dilatadas.
Enfim!
Então digo pra mim
mesmo, apesar de cotidiano, que aquele é o momento que eu mais aguardei em toda
a minha vida, enquanto volto mais uma vez a atenção para o reflexo, pra ter a
certeza de que sou eu quem lhe fez, hoje, ontem e os dias anteriores a ontem,
cerrar os olhos pela metade e, por alguns breves momentos, não conseguir fazer
nada além de observar as figuras que formam na parede escura das luzes vindas
da janela.
A realidade também
não é ruim. você transparece ser feliz daí, e eu ao longo do tempo aprendi a
fingir bem, daqui. A vida segue pros dois, acomodados com a idéia de nunca
atingir a tangente.
Mas às vezes, nos
dias mais penosos, recorro à uns goles do rum barato que meu avô costumava
comprar, o maço escaço e amaçado de malboro, e aquela imagem, recorrente, da
penumbra de lençóis e corpos no meio da madrugada. "
Ps.: O título é meu.
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