terça-feira, 16 de julho de 2013

Tangente

É de um amigo, mas poderia ser tão meu.



"Às vezes me pego sonhando acordado com a imagem, recorrente, da penumbra de lençóis e corpos no meio da madrugada. Assim eu reconheço, sem muita visão, no entrelaçar terno e morno de pernas e braços, a epifania personificada, encarnada, endeusada - e porquê não, amada - em cabelos longos com perfume de Phebo.

Lá, parada, firmando as vistas contra a minha.

Enfim.

Quase imperceptível na pouca luz do quarto, no brilho excessivo daqueles olhos entreabertos. Dentro deles, o reflexo do meu sorriso, duplicado nas suas pupilas dilatadas.

Enfim!

Então digo pra mim mesmo, apesar de cotidiano, que aquele é o momento que eu mais aguardei em toda a minha vida, enquanto volto mais uma vez a atenção para o reflexo, pra ter a certeza de que sou eu quem lhe fez, hoje, ontem e os dias anteriores a ontem, cerrar os olhos pela metade e, por alguns breves momentos, não conseguir fazer nada além de observar as figuras que formam na parede escura das luzes vindas da janela.

A realidade também não é ruim. você transparece ser feliz daí, e eu ao longo do tempo aprendi a fingir bem, daqui. A vida segue pros dois, acomodados com a idéia de nunca atingir a tangente.

Mas às vezes, nos dias mais penosos, recorro à uns goles do rum barato que meu avô costumava comprar, o maço escaço e amaçado de malboro, e aquela imagem, recorrente, da penumbra de lençóis e corpos no meio da madrugada. "



Ps.: O título é meu.

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